Da família vem a certeza que aceitar é proteger
As famílias que se confrontam com a realidade de ter no seu seio uma criança ou jovem Trans deparam-se, a nível emocional, com imensos desafios. Desde a ignorância sobre o tema ao medo da rejeição social, até à quebra das expectativas idealizadas para aquele filho ou filha.
Este é um caminho solitário, de muitas incógnitas e questionamentos: “Onde falhei como educador/a?”, “Terei contribuído, enquanto mãe/pai, para esta situação?”, “Será uma fase?”.
Este filho ou filha obriga-nos a olhar para dentro, e perceber que o mundo é muito mais do que aquilo que conhecíamos até ali.
Este filho expõe-nos porque o seu coming-out, a sua saída do armário, força-nos a sair também, e muitos pais e mães não estão preparados para isso.
No entanto, quando este filho ou filha é abraçado pela família e a sua identidade validada, o caminho torna-se mais suave, não nos deixamos absorver por uma sociedade que discrimina, oprime e, finalmente, percebemos que essa é a decisão certa. Percebemos porque sentimos os nossos filhos e filhas mais inteiros. Não nossos, mas deles.
E assim deve ser.
Os projetos de lei que foram aprovados no parlamento trazem, novamente, os fantasmas opressores contra os quais as famílias tanto lutaram. Quando se fala destas medidas, o debate parece ficar no plano teórico ou ideológico. Mas, na prática, estamos a falar de crianças que já iniciaram o seu percurso de afirmação, em casa, na escola e na comunidade. Estamos a falar de famílias que, com maior ou menor dificuldade, têm procurado dar respostas responsáveis, informadas e cuidadosas às necessidades dos seus filhos e filhas.
Estamos a falar de um nome e género com o qual se identificam, e que só a lei 38/2018 reconhece. Alterações legislativas deste tipo não acontecem no abstrato.
Têm consequências concretas: criam incerteza, aumentam a insegurança e podem interromper processos que estavam a ser acompanhados de forma estruturada por profissionais de saúde, educação e apoio social. Para muitas destas crianças e jovens, a estabilidade é um fator essencial. E essa estabilidade constrói-se com reconhecimento, com proteção e com a possibilidade de viverem de forma coerente com aquilo que são, sem medo de retrocessos ou de perda de direitos já adquiridos.
As famílias, por sua vez, não precisam de mais obstáculos. Precisam de informação clara, de apoio e de enquadramento legal que lhes permita cuidar dos seus filhos e filhas com segurança e dignidade.
Questionamos como foram elaborados e votados, projetos sem auscultação de crianças e jovens trans e suas famílias. O que conhecem as senhoras e senhores deputados da realidade portuguesa deste universo? Por que não foram tidos em conta os pareceres científicos enviados ao parlamento?
Tantas perguntas sem resposta.
AMPLOS
Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género