CooLabora e o compromisso com a Igualdade de Género
Com foco na igualdade de oportunidades, inclusão, participação cívica e educação, a CooLabora aposta em projetos que desenvolvem pessoas e comunidades. A sua missão é um compromisso ético com um futuro mais justo e solidário, construído em parceria com outras entidades com impacto real em território nacional. Nesta entrevista, procuramos saber um pouco mais sobre o trabalho desta organização, especialmente na sua atuação em Igualdade de Género e Direitos das Mulheres.
PDH: Em 2024, a CooLabora apoiou 259 pessoas em contexto de violência doméstica, recebeu 1666 atendimentos e contribuiu para que 95% das vítimas ganhassem maior autonomia. Quais são os grandes desafios do Gabinete de Apoio para conseguir garantir que mulheres em situação de vulnerabilidade conseguem recuperar a sua autonomia e segurança?
CL: O Gabinete de Apoio a Vítimas de Violência Doméstica e de Género enfrenta algumas dificuldades que são transversais a todo o país, mas também algumas questões específicas que têm a ver com a sua situação particular.
De um modo geral, constatamos que, apesar dos grandes esforços que marcaram a prevenção e o combate à violência doméstica e de género nos últimos anos, este problema tem-se mantido de forma persistente. A cultura patriarcal que está na sua base manifesta-se de forma transversal em toda a vida social, como por exemplo, na brandura de sanções judiciais, na conivência da comunidade ou na culpabilização das vítimas, entre muitos outros aspectos que poderíamos enumerar.
Falta uma aposta mais consistente na prevenção e combate, seja através da sensibilização, nomeadamente nas escolas e na formação de profissionais como é o caso de magistrados e de magistradas, de membros das forças de segurança e de profissionais dos serviços de saúde. Falta especialmente uma condenação social séria deste problema que atenta contra os direitos humanos e para o qual não deveria haver desculpas.
“O Estado, na prática, não assume que a violência doméstica e de género é um problema estrutural, ao qual é necessário fazer face através de respostas estruturadas.“
Sentimos também dificuldades relativas à própria instabilidade financeira que é vivida pela maioria das estruturas da Rede Nacional de Apoio a Vítimas de Violência Doméstica, que, ao invés de outras respostas sociais, vê o seu financiamento depender de projectos financiados pelo Fundo Social Europeu, o que se traduz numa situação de precariedade constante. O Estado, na prática, não assume que a violência doméstica e de género é um problema estrutural, ao qual é necessário fazer face através de respostas estruturadas. Existem ainda outros problemas derivados das dificuldades económicas das próprias vítimas de violência doméstica, onde sobressai, por exemplo, o acesso à habitação a custos suportáveis, que permitam a sua autonomização.
PDH: Apesar do contexto desfavorável, há uma convicção clara na continuidade das vossas duas ações públicas anuais de sensibilização: One Billion Rising – Violência no Namoro e o Dia Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra as Mulheres. Que técnicas usam para atingir a mudança de mentalidades e comportamentos nas camadas jovens?
CL: Estes dois grandes eventos que organizamos anualmente chamam a atenção da comunidade e colocam na agenda pública o problema da violência contra as mulheres, que, como os números demonstram, não é de modo algum uma questão que a sociedade portuguesa tenha resolvido. Aliás, uma das dificuldades actuais reside no facto de o senso comum desvalorizar este problema e considerar que se trata de um resquício do passado.
A simples leitura de documentos oficiais como o Relatório Anual de Segurança Interna demonstra que isso não corresponde à realidade. O One Billion Rising, um evento mundial que se assinala todos os anos no dia de S. Valentim ou do namoro, a 14 de fevereiro, mobiliza a comunidade através da dança e convida as pessoas a levantarem-se contra a violência sobre as mulheres. Temos contado especialmente com a participação de escolas, mas também de IPSS e outras organizações, com centenas de pessoas anualmente a participarem.
“O Coolaboratório é um colectivo de jovens que voluntariamente organiza iniciativas públicas de defesa dos direitos humanos e mais especificamente, dos direitos das mulheres.“
O Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres é também um evento que organizamos anualmente, em Novembro, e tem sido muito mobilizador da comunidade. A isso não é alheio o facto de termos sempre optado por criar uma parceria co-organizadora aberta, onde estão desde núcleos de estudantes da Universidade até à Academia Sénior, entidades desconcentradas da administração central e organizações da sociedade civil. Também os membros da rede territorial Violência Zero, que a CooLabora coordena. Do ponto de vista das linguagens, temos optado por recorrer a expressões diversas, sejam manifestos, teatros, ou outras linguagens, especialmente de carácter performativo, que estimulam a inclusão de todas as pessoas.

PDH: Aproveitando a pergunta anterior, dado o aumento alarmante da violência contra mulheres em idades jovens, em contexto de namoro ou violência doméstica, projetos como o Coolaboratório têm os resultados esperados em termos de sensibilização?
CL: O Coolaboratório é um colectivo de jovens que voluntariamente organiza iniciativas públicas de defesa dos direitos humanos e mais especificamente, dos direitos das mulheres. Cabe à CooLabora coordenar este grupo, providenciar alguns bens e assegurar algumas despesas para sustentar a sua acção. Os resultados são visíveis no próprio grupo, pois cada iniciativa encerra uma forte reflexão entre os/as jovens. A multiculturalidade traz uma maior riqueza ao debate e, consequentemente, à acção. Porém, os resultados também se vêem na cidade da Covilhã, sendo os mais evidentes os que aconteceram numa das últimas iniciativas que implicou mostrar que as ruas da cidade, todas com nomes de homens, podem afinal ter nomes de mulheres.
“Queremos acreditar que o Coolaboratório é um farol que do alto da Serra da Estrela, mostra caminhos a quem se dispõe a caminhar pela igualdade de género. “
A resposta do município foi a inauguração de três espaços da cidade com nomes de mulheres ou associados aos direitos das mulheres. Sabemos também que, pelo menos em duas outras regiões do país, a iniciativa foi replicada. É claro que o Coolaboratório não muda o mundo, nem sequer a situação das mulheres na Covilhã, mas é uma manifestação de defesa dos direitos das pessoas que, de alguma forma, são discriminadas. Tendo em consideração que cada vez há mais manifestações de ódio e de retrocesso nesta luta, queremos acreditar que o Coolaboratório é um farol que do alto da Serra da Estrela, mostra caminhos a quem se dispõe a caminhar pela igualdade de género.
PDH: A igualdade de género também implica reconhecer as desigualdades dentro das desigualdades. Os direitos e a emancipação das mulheres ciganas, por exemplo, fazem parte do trabalho constante da CooLabora. Considerando as barreiras culturais e sociais que afetam as mulheres ciganas, quais são as estratégias que usam para promover a igualdade de género nesta comunidade?
CL: A CooLabora trabalha desde 2010 com uma grande comunidade cigana do Tortosendo, uma pequena vila do concelho. A melhor forma de garantir que os direitos das mulheres são cumpridos, é incentivar as meninas a frequentar a escola. Nesse sentido, temos sentido algumas mudanças, com o crescimento do número de meninas que aumenta o seu grau de escolaridade. Isso faz-se não apenas intervindo junto da própria comunidade, mas também junto da escola enquanto instituição que pode acolher ou excluir. O nosso trabalho tem sido intenso e com um objectivo: tornar a escola mais inclusiva. No entanto, um dos maiores desafios é a própria instituição educativa identificar as suas fragilidades em relação à inclusão da diversidade cultural.
Junto da comunidade, o nosso trabalho procura dar visibilidade às mulheres através do seu envolvimento directo nas iniciativas e nas parcerias que criamos, sabendo que esta é uma forma de as enaltecer.

PDH: É também na comunidade que surge a arte e a CooLabora tem usado a criação artística em algumas das suas intervenções. Na vossa perspetiva, a arte continua a ser uma forte ferramenta na promoção da mudança?
CL: Sim, desde que a arte seja participada. A CooLabora tem usado a criação artística enquanto forma de envolver as pessoas a quem se destina a intervenção social. É através dessa participação que a mudança pode ocorrer. Um dos exemplos que gostamos de destacar foi a exposição A Revolta dos Panos. Através do convite do artista plástico Arturo Cancio, envolvemos muitas dezenas de pessoas, na sua maioria mulheres, que transformaram velhos panos de cozinha em manifestos contra a violência e a discriminação machista. Vários grupos, durante várias semanas, coseram panos de cozinha criando painéis de grande dimensão onde foram bordados ditados populares machistas.
Esses painéis resultaram numa exposição com forte impacto na comunidade, mas também no grupo de pessoas que se envolveram neste projecto pois as longas horas de trabalhos manuais foram também tempo de debater o impacto de formas de discriminação sobre as mulheres sob formas nem sempre óbvias e mas validadas pela tradição.
A cada ano, os passos dados pela CooLabora rumo à promoção da igualdade de oportunidades e da inclusão social são mais firmes e fortes. Um caminho que almeja uma comunidade justa, educada e “comprometida com a transformação social, ecológica e económica do território”. Um percurso que confirma que a mudança começa connosco!